As casas da Praia de Pernambuco

Da Reportagem

Carla Zomignani

 

Quem passa pela Avenida Marjory Prado, na Praia de Pernambuco, em Guarujá, tenta imaginar o que há por trás dos muros altos que escondem (e protegem) as casas de veraneio construídas ao longo da via. Sabe-se apenas que são imóveis de alto padrão, a maioria de famílias paulistanas de poder aquisitivo elevado. Na realidade, essas verdadeiras mansões guardam uma história recheada de muito glamour, que se confunde com a própria fundação da cidade. Mas, sobretudo, revelam uma arquitetura de vanguarda, como aponta em sua tese de mestrado o arquiteto santista Maurício Azenha.

  O levantamento realizado por Azenha compreende 12 imóveis da Praia de Pernambuco, que começou a ser ocupada pela elite paulistana depois que o empresário Jorge da Silva Prado, junto com sua esposa, Marjory Prado, comprou a praia e deu início ao processo de loteamento, em 1946.

  O empreendimento, idealizado por sua esposa, trouxe para Guarujá alguns dos afortunados da Capital, que viam a chamada Pérola do Atlântico como destino certo para seu desfrute a beira-mar. Por conta disso, como apurou o arquiteto, não pouparam recursos para investir nas suas casas de veraneio.

  Para tanto, contrataram os melhores arquitetos paulistanos da época, que tiveram toda a liberdade para projetar e construir imóveis que garantissem o conforto de uma residência com o despojo de uma autêntica casa de praia.

  Fazem parte da lista de profissionais nomes como os de Gian Carlo Gasperini, Eduardo Longo, Sami Bussab, Rodrigo Lefévre, Miguel Juliano, Décio Tozzi, Eurico Prado Lopes, Paulo Mendes da Rocha, Haron Cohen e Oswaldo Arthur Bratke.

  ‘‘Algumas dessas residências foram projetadas por arquitetos que se configuram como expoentes da chamada escola paulista’’, destaca Azenha em seu trabalho. ‘‘Apesar da grande maioria das casas se enquadrar — dentro da classificação da arquiteta Marlene Acayaba em seu estudo Residências em São Paulo 1947-1975 — como arquitetura corrente ou arquitetura comercial, foi possível a classificação de um número razoável de bons projetos’’.

  E foi nos projetos baseados na arquitetura de vanguarda que Azenha se fixou, depois de uma pré-seleção de 32 casas. As 12 escolhidas desse universo foram construídas de 1959 a 1989, período em que mais se construiu no loteamento. Segundo o profissional, para chegar a essa dúzia de casas, ele precisou fazer um verdadeiro rastreamento de informações in loco. Isto porque, como ressalta, a Prefeitura lhe negou qualquer tipo de informação sobre tais construções.

  ‘‘Em função da quase inexistência de fontes primárias, precisei garimpar, in loco, todas as informações. Assim, tive que tomar como base depoimentos de pessoas que, de alguma forma, participaram dos primórdios do loteamento, além de publicações em periódicos ou indicações de colegas arquitetos’’.

  O resultado foi um detalhado levantamento, que, em breve, deve ser publicado em forma de livro.

Objetivo é fazer um guia de consulta

Da Reportagem

  Para o arquiteto e agora mestre pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Maurício Azenha, a principal expectativa em relação à pesquisa é a possibilidade de reflexão sobre essas obras. Afinal, poucas foram analisadas ou publicadas isoladamente em periódicos especializados, ‘‘e nunca com a visão de conjunto que a análise desses programas pode configurar’’.

  Por se tratar de ícones da arquitetura de vanguarda, Azenha aposta que o estudo desses projetos em muito poderá contribuir para o entendimento da arquitetura residencial paulista, voltada para o lazer. ‘‘É inegável que parcela significativa da produção arquitetônica em São Paulo foi feita dentro dos cânones da arquitetura moderna, e que seus protagonistas são referência para a maioria dos profissionais da área’’.

  Pensando nisso, Azenha detalhou em sua tese todos os pontos que nortearam a realização dos projetos, apresentando desenhos, fotos e uma análise sintética de cada uma. Além disso, há mapas de localização e uma pequena ficha técnica com os dados disponíveis sobre cada casa.

  Sua idéia, agora, é transformar esse estudo em um guia de consulta para arquitetos, que aborda não só os aspectos específicos da área, mas também traça toda a trajetória histórica do município em busca de sua vocação como cidade balneária para uma elite. Além disso, inclui depoimentos dos próprios autores dos projetos, com suas respectivas apreciações.

Características

  Conforme destaca Azenha, as características principais dessas construções na Praia de Pernambuco são o uso predominante do concreto e de plantas com liberdade de articulação de espaços, ‘‘o que denota a preocupação com o entorno e a interrelação praia/paisagem’’.

  Azenha sublinha também que 90% das casas foram construídas originalmente sem muros, ‘‘bem abertas’’, mas sempre com itens muito exclusivos, ‘‘mais comprometidos com a modernidade’’. ‘‘A idéia foi alinhavar algumas idéias comuns entres os projetos, que tivessem o compromisso com a inovação, que acrescentassem no jeito de ocupar e não repetissem modelos externos’’.